Adalberto Monteiro


quarta-feira, 30 de julho de 2014

A CONCRETUDE DO INVISÍVEL

Ele tinha 79 anos, e sei que amava a Deus. Minha ultima visita a ele, em sua casa, foi para levar um CD de musicas antigas que ele tanto gostava, e quando o entreguei, ele já estava muito debilitado. Vi quando ele segurou o cd com alegria, como se fosse algo precioso. Fiquei muito feliz ao ver o quanto aquilo era valoroso pra ele. Ele colocou debaixo do travesseiro em que estava reclinado, e então começamos a conversar. Quando perguntei como ele estava, ele disse: “Na minha angústia clamei ao Senhor e ele me livrou de todos os meus temores”, e então foi recitando alguns salmos, um atrás do outro... e eu fiquei ali olhando pra ele. Depois de conversarmos um pouco, percebi que ele estava cansado e então decidi deixa-lo por aquele momento. Quando fui, dei recomendações a uma senhora que trabalha em sua casa para que o ajudasse a ouvir o CD, providenciando um aparelho comum, e na minha ida para casa orava por ele.

Antes deste dia, tive outros encontros com ele e me lembro de um que foi especial. Levei meu violão e então cantamos alguns hinos juntos, e ele fazia questão de cantar, de puxar papeis com músicas cifradas, e de me mostrar as de sua preferencia... Como foi bom vê-lo sorrindo, interagindo e ainda cantando – e por sinal muito afinado! 

Uma das coisas que me chamou muito atenção foi uma nítida diferença entre o invisível e o visível em sua vida. De como aquilo que é visível se torna pouco, diante do invisível; digamos, “das coisas que não se veem” como dizia o apóstolo Paulo.

Quem acompanhou de perto o seu sofrimento, pode ver como que o seu corpo não estava bem, aquela enfermidade o consumindo, mas ali, transparecendo em seu sorriso, em sua canção, em suas orações a concretude do invisível. Então pude ver que realmente a fé existe, ela é real, e que sobressai! É uma subjetividade que aparece, que é independente quando viva, e que mesmo não atuando no visível – como sempre é esperado – transparece como uma flor, apontando para o reino de Deus. E quem tem olhos para ver poderá vê-la.

Mas o seu corpo não pôde resistir e agora está com Jesus. Estive em seu sepultamento ontem, e vi seu rosto sereno; bem como diz a letra de uma das musicas que ele tanto gostava: “todo o sofrimento acabou, caminhando vou com Jesus até o fim”, isto aconteceu. Acabou o sofrimento, mas a fé que Deus fez nascer dentro dele o preservará para o dia do Senhor. Pude ver o quanto ele amava, ou melhor, o quando ama a Deus (porque Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos). 

Meus profundos pêsames a todos os familiares. Que este testemunho de vida, seja sempre vivo em nossos corações. 

Descanse em paz, meu irmão Carlos.

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